quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Cultura: 2º Prêmio Ariano Suassuna bonifica 10 vencedores, incluindo Mestre Biu Alexandre de Condado e Caboclinho Cahetés de Goiana

Além da entrega dos certificados, Secult e Fundarpe lançaram a terceira edição do novo edital da premiação

Uma cerimônia especial marcou nesta terça-feira (24), no Teatro Arraial Ariano Suassuna, a entrega dos certificados aos vencedores do 2º do Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia. Com apresentação da Cia de Acrobacias Aéreas Penduricalho na abertura, a cerimônia emocionou a todos os presentes, por dar protagonismo aos artistas populares. Cada um deles subiu ao palco e recebeu certificado das mãos do governador Paulo Câmara, do secretário de Cultura Marcelino Granja e da presidente da Fundarpe, Márcia Souto. Os vencedores da categoria Mestres e Mestras dos Saberes e Fazeres foram contemplados com R$ 10 mil, cada. Na categoria grupo, o valor do prêmio é de R$ 15 mil. Na área de Dramaturgia, o prêmio para o primeiro lugar é de R$ 10 mil; e R$ 7 mil para o segundo colocado (veja abaixo perfil de cada vencedor).

A seleção das propostas vencedoras na área de Cultura Popular foi avalizada por uma comissão formada pelos especialistas Francisco Adriano da Costa Souza, José Bezerra de Brito Neto, Débora Fernandes Herszenhut e André Alexandre Mendes Freiras. Na área de Dramaturgia, a análise ficou por conta de Morgana Pessoa, Cristiana Gimenes e Luiz de Assis Monteiro.
Dona Glorinha do Coco, coquista do bairro do Amaro Branco, em Olinda, também tocou alguns cocos com seu grupo e, aos 83 anos, relatou a sua gratidão por receber o prêmio. “Não me considero velho, só um pouquinho usada”, brincou a senhora, esbanjando vitalidade e lucidez.O bacamarteiro Janduir João dos Santos, do Grupo de Bacamarte Batalhão 56, também falou representando os artistas populares. Ressaltou que além de diversão, o bacamarte representa a resistência da cultura popular.  “O trabalho que viemos fazendo não é só uma brincadeira, é uma forma de dar seguimento, levando a cultura para as próximas gerações”, relatou.

Nascido em Recife, mas tendo vivido toda vida em Vitória de Santo Antão, aos 28 anos, o escritor ator, diretor e professor  Rafael Gustavo é vencedor de diversos títulos literários, sendo a segunda vez que leva o prêmio Ariano Suassuna. Agradeceu a “deus, deusas, orixás, a família, aos professores”, reforçando a importância do ato de agradecer. No seu discurso, emocionou a todos os presentes por levantar, com força, coragem e sensibilidade, a bandeira da arte e da educação, como instrumento da transformação social.  “Quando o mal na política acontece, é a arte a primeira a ser desnutrida… mas não nos calaremos, não venham com seus valores conservadores. Se me calarem a voz, vai jorrar tanto artista falando por mim. O melhor aliado ao desenvolvimento social é a cultura e a educação”, discursou levando aplausos fortes da plateia.
NOVO EDITAL – Em sua fala, a presidente da Fundarpe, Márcia Souto, reforçou o edital do 3º Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia, que fica aberto de 3 de novembro a 12 de janeiro. CONFIRA O NOVO EDITAL E SEUS ANEXOS.

Para o segmento de Dramaturgia, os proponentes deverão apresentar obras inéditas nas três categorias  “Teatro Adulto”, “Teatro para Infância e Juventude” e “Teatro para Formas Animadas”. Já no segmento de Cultura Popular, grupos/comunidades/mestres e mestras deverão comprovar residência e atuação em Pernambuco há pelo menos cinco anos.

Márcia Souto anunciou para breve o reequipamento do Teatro Arraial. “É uma das formas de manter viva as tradições do estado e a importância que teve e tem o mestre Ariano Suassuna”.

O secretário de Cultura Marcelino Granja ressaltou diversos exemplos de como a cultura de Pernambuco tem sido valorizada, mesmo no cenário de crise enfrentado pela gestão. “Podemos citar todos os prêmios que lançamos na gestão do governador Paulo Câmara, além do aumento de alguns deles, e o aumento ainda do Funcultura”, destacou o secretário.

“Ariano Suassuna deve estar muito contente por saber que o prêmio que leva seu nome está conseguindo fazer com que a cultura de Pernambuco continue cada vez mais viva, cada vez mais presente, revelando tantos talentos e, ao mesmo tempo, valorizando os talentos que já existem”, ressaltou o governador. Paulo Aproveitou a oportunidade para garantir aos artistas pernambucanos o apoio do Governo do Estado na preservação e promoção dos valores culturais. “Os desafios de fazer cultura são grandes, principalmente em momentos econômicos tão difíceis, mas vamos continuar buscando alternativas de investir e valorizar a nossa arte”, reforçou.

CONFIRA OS VENCEDORES NO SEGMENTO CULTURA POPULAR

RMR – GRUPO
Cambinda Estrela: No Baque da Cidadania – Uma reflexão sobre cultura popular, saberes e fazeres (Recife)

Braço social do Maracatu Nação Cambinda Estrela, que permanece vivo e atuante desde 1935, o Centro Cultural Cambinda Estrela ministra ao longo de todo o ano cursos de percussão geral, corte e costura, bordados, produção de adereços, dança afro e popular, capoeira, canto (toadas/loas), roda de leitura, cine – clube, debates/ seminários sobre raça, gênero, orientação sexual, cultura negra, saúde, cidadania e direitos humanos, confecção de instrumentos percussivos, oficinas sobre a beleza e estética afro, grafitagem, aulas de alfabetização, reforço escolar para os alunos do fundamental, médio e universitários para meninos e meninas da comunidade de Chão de Estrelas adjacências, zona norte da cidade do Recife. Ao longo desses anos de trabalho podemos afirmar que pequenas ações como os cursos ministrados contribuem efetivamente para a sociabilidade dos meninos e meninas, bem como as aulas têm se mostrado um excelente espaço para a afirmação da identidade sócio educacional e cultural das comunidades de afrodescendentes, o que tem fortes imbricações na questão da cidadania e da inclusão social.

RMR – MESTRE
Dona Glorinha do Coco (Olinda)

Maria da Glória Braz de Almeida, ou Dona Glorinha do Coco, mestra de coco e viúva de pescador, tem 83 anos de idade e herdou de seus antepassados o gosto pelo coco de roda, principalmente aquele que se cantava, e se canta ainda hoje, na beira da praia. Neta de Joana, uma escrava fugida de um engenho em Catende/PE no século XIX, e filha de Maria Belém, mulher fundamental para a história do carnaval de Olinda, Dona Glorinha é atualmente a mestra mais velha do Amaro Branco, memória viva da comunidade, guarda histórias singulares acerca dos antigos coquistas da Vila dos Pescadores, onde reside desde que nasceu. Dando continuidade ao legado deixado por sua mãe, uma das fundadoras do Acorda Povo, folguedo que já contabiliza mais de 60 anos, Dona Glorinha organiza durante o dia de São João, uma sambada animada e frequentada por todos os moradores do bairro e adjacências, promovendo lazer cultural para aqueles que buscam programação alternativa e descentralizada durante as festas juninas. Foi em 2013 que D. Glorinha do Coco lançou seu primeiro CD, que leva o seu nome, e com ele foi finalista do Prêmio da Música Brasileira edição 2015, nas categorias melhor álbum regional (produzido por Isa Melo) e melhor cantora regional. Ainda em 2015, se apresentou no SESC Pompéia, no projeto Prata da Casa, retornado em Fevereiro de 2016 como uma das melhores atrações do ano de 2015. Ainda em 2013, no mês de março, faz show no Espaço Brasil em Lisboa – Portugal, na programação do Ano do Brasil em Portugal, promovido pela Funarte/Minc. Dona Glorinha participou do premiado documentário de Mariana Fortes, “O Coco, A Roda, O Pneu e o Farol”, e teve seu primeiro registro fonográfico na coletânea “Coco do Amaro Branco Vol. 2”. Participou da exposição “Coco do Amaro Branco – Retratos”, de maio a setembro de 2011, no Museu da Abolição em Recife/PE; da exposição coletiva “Olinda Patrimônio Cotidiano”, de agosto a outubro de 2011 na casa do IPHAN, na Rua do Amparo em Olinda/PE; e da “Olinda Patrimônio Cotidiano – Exposição em Estêncil”, do fotógrafo olindense Emiliano Dantas.

AGRESTE – GRUPO
Grupo Bacamarteiros Batalhão 56 (Riacho dos Almas)

Fundado por Janduir João dos Santos, o Grupo de Bacamarte Batalhão 56 é uma das tradições mais populares do município de Riachão das Almas. Com 42 bacamarteiros, entre homens e mulheres, a manifestação segue a tradição tanto na uniformização dos seus membros (todos eles vestem roupa de zuarte – algodão azul, lenços vermelhos sobre os ombros, chapéus de couro de abas largas, quebrado na frente e cartucheiras usadas para colocar a pólvora negra de baixo teor) quanto nos ritmos (assim como em toda manifestação artística ppouplar, o triângulo, o zabumba e a sanfona compõem a banda que os acompanham em suas apresentações). É um dos grupos pernambucanos mais atuantes na transmissão de saberes e perpetuação da cultura nordestina.

AGRESTE – MESTRE
Mestre João Elias Spíndola (Poção)

Há mais de 70 anos, o Estado de Pernambuco é pioneiro na confecção de renda renascença, sendo o maior polo produtivo no Brasil, chegando, inclusive, a exportar esse tipo de artesanato. Um dos nomes mais atuantes por trás desse legado é o do Mestre João Elias Espíndola, intitulado Patrimônio Vivo do Estado no dia 22 de dezembro de 2016. Nascido no dia 4 de março de 1933 no Sítio Candeeiro, no município de Poção, Agreste do Estado, Seu João Elias cresceu naquela que é considerada a Capital da Renascença. Responsável por uma das rendas renascenças mais autorais e requintadas do Nordeste e do Brasil, Seu João Elias trabalhou durante 60 anos de forma autônoma, projetando o nosso Estado de forma grandiosa no Exterior. Uma de suas clientes comprava a sua renda e o representava em inúmeros eventos no Brasil e nas Feiras Internacionais, sobretudo em Portugal e na Alemanha. Além de ter contribuído durante toda a sua vida para a tradição da renda renascença, ele continua repassando sua herança têxtil para as suas sobrinhas.

ZONA DA MATA – GRUPO
Caboclinho Cahetés de Goiana

Os Caboclinhos Cahetés é uma sociedade civil, carnavalesca e cultural fundada no dia 15 de dezembro de 1904, que possui mais de 120 componentes. Seu nome originou-se da tribo dos Cahetés que habitavam as terras do Engenho Japumim na cidade de Goiana. Seu fundador foi João Marinho, tio avô do atual presidente Pedro Gonçalves Ramos. É a mais antiga tribo de caboclinhos da cidade e é conhecida pela sua mistura de ritmos e cores que, permutados com as diversas outras culturas e etnias da região, mantém há mais de 100 anos a tradição e os costumes dos canaviais da Zona da Mata pernambucano.


ZONA DA MATA – MESTRE
Mestre Biu Alexandre (Condado)

Severino Alexandre da Silva, Mestre Biu Alexandre, começou a botar figura aos 13 anos. Em 1979, fundou seu Estrela de Ouro e hoje comemora o fato de ter os filhos e netos envolvidos no brinquedo. Seu Cavalo Marinho conta também com a presença de Seu Martelo, o Mateus mais velho de Pernambuco. Martelo e outros brincantes do Cavalo Marinho Estrela de Ouro integram o elenco do grupo Grial. Em 2006, o Estrela de Ouro fez parte do Coletivo Pernambuco, representando o Brasil no evento “Brasil em Cena” na Alemanha. Compõe, junto com o Cavalo Marinho Estrela Brilhante, o Ponto de Cultura Viva Pareia.


SERTÃO – GRUPO
Samba de Veio (Ilha do Massangano/Petrolina)

Com sede localizada na Ilha do Massangano no submédio Rio São Francisco, em Petrolina, Sertão de Pernambuco, o Samba de Véio é uma manifestação popular de tradição oral, com características lúdicas e religiosas, praticada por alguns moradores da Ilha. A origem do folguedo remonta há mais ou menos 120 anos e vai seguindo de geração em geração. O principal instrumento utilizado pelo grupo é o tamborete, uma espécie de banco de madeira com o assento feito com couro de bode que, para ser tocado, precisa ser afinado com a temperatura de fogueiras. Depois do lançamento do primeiro CD, o grupo começou a realizar apresentações fora de Petrolina, participando de eventos de cultura popular como o Festival de Inverno de Garanhuns e o Festival Pernambuco Nação Cultural. O grupo é formado por 42 integrantes, entre homens e mulheres, cujos saberes são transmitidos através da oralidade que são passadas de geração para geração.


SERTÃO – MESTRE
Zé Carlos do Pajeú (Tabira)

É cantador, repentista profissional da nova geração de viola, produtor cultural, escritor, cordelista, oficineiro, palestrante, declamador e glosador com atividade ininterrupta há 14 anos. Como o pai, tio e outros familiares poetas, José Carlos Lima Nunes nasceu em Tabira e é um dos grandes nomes da cantoria de viola nordestina.  Formado em Letras, é o criador do Grupo Infância Firmada, que reúne 56 crianças residentes do município de Tabira, com faixa etária entre 5 e 12 anos, cujo objetivo é transmitir ensinamentos e despertar entre os mais jovens o conhecimento, o gosto e a prática das várias manifestações da poesia popular nordestina.

VENCEDORES NO SEGMENTO DRAMATURGIA
CATEGORIA TEATRO ADULTO

1º lugar
Texto: O Gaioleiro
Autor: Raphael Gustavo Soares Ferreira

Ator, diretor e professor de teatro e língua portuguesa. É formado em Letras pela Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão (Faintvisa). Já trabalhou como coordenador pedagógico de teatro nas escolas de Vitória de Santo Antão e foi um dos vencedores do Sarau Poético e Lírico da Faintvisa em 2012, com o texto “Encruzilhada”. Trabalha com direção artística de óperas, ao lado de Francisco Mayrink desde 2010, e participou de diversas produções e festivais pelo Brasil. É integrante da Cia. Experimental de Teatro e um dos responsáveis pela elaboração dramatúrgica dos espetáculos do grupo.

2º lugar
Texto: Sina
Autora: Andala Quituche

É licenciada em Letras pela Universidade de Pernambuco, está em conclusão da pós-graduação em Cultura Pernambucana pela FAFIRE. Vice-presidente e folgazã do Cavalo Marinho Boi Pintado do Mestre Grimário desde 2010 e integrante do grupo teatral Coletivo Labuta de Teatro desde 2014, tem como sua maior paixão e motivação a Cultura Popular do nosso Estado. Atualmente Andala Quituche dedica se a escrita da dramaturgia com o objetivo de além de escrever seus próprios textos, possa também encená-los junto a seu grupo Coletivo Labuta de Teatro que há três anos vem pesquisando a Cultura Popular de Pernambuco, sobretudo a tradição do Cavalo Marinho.

HISTÓRICO - Criado pelo governador Paulo Câmara em 2015, o Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia busca incentivar a produção dramatúrgica de Pernambuco, por meio da publicação de textos inéditos e preservar a memória das expressões populares em todas as suas formas. Inspirado na forte contribuição de Ariano, tanto no campo das artes quanto da gestão pública de Cultura, o edital é publicado anualmente pela Secult-PE/Fundarpe e destina-se a dois segmentos: Cultura Popular e Dramaturgia. Na primeira premiação, foram contemplados 13 vencedores, dividido entre dois segmentos e cinco categorias participantes. O primeiro incluiu as categorias “Mestres” e “Grupos”, das quatro macrorregiões: Metropolitana, Zona da Mata, Agreste e Sertão. Este segmento foi bonificado com valores de R$ 10 mil (Mestre) e R$ 15 mil (Grupos), cada. Já no segmento da Dramaturgia, que contou as categorias “Teatro de Formas Animadas”, “Teatro para a Infância e Juventude” e “Teatro Adulto”, os ganhadores foram contemplados com R$ 10 mil (primeiros lugares) e R$ 7 mil (segundos lugares) para cada uma das três categorias.

HOMENAGEADO – Ariano Vilar Suassuna nasceu na cidade de Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa, capital da Paraíba, em 16 de junho de 1927. Poeta, romancista, ensaísta, dramaturgo, professor e advogado, o mestre Ariano foi o idealizador do Movimento Armorial, que tem como objetivo criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste Brasileiro. Reunindo elementos de diferentes movimentos como o simbolismo, o barroco e a literatura de cordel, mostrou-se um defensor nato da cultura nordestina. Ariano Suassuna faleceu no Recife, no dia 23 de julho de 2014.

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