terça-feira, 23 de maio de 2017

Cultura: Estudantes de Goiana mergulham na literatura e na cultura popular de Pernambuco

Mais uma edição do projeto Outras Palavras envolveu a comunidade escolar da região

O Outras Palavras chegou na sexta-feira (19) ao município de Goiana, na Mata Norte pernambucana. O projeto realizado pela Secretaria de Cultura de Pernambuco e Fundarpe tem percorrido o estado e já atingiu 297 escolas e 6.736 alunos. A programação integra atividades de cultura e cidadania e já doou mais de 3.900 livros para as bibliotecas das unidades de ensino.

O convidado desta edição foi o escritor Wander Shirukaya, vencedor do 2° Prêmio Pernambuco de Literatura. O bate-papo mediado pelo jornalista e cineasta Marcos Enrique contou coma participação dos estudantes de sete escolas de Goiana e Condado (ETE Aderico Alves Vasconcelos,EREM Augusto Gondim, André Vidal de Negreiros, João Alfredo, Cel. José Pinto de Abreu, Júlio Correia e EREM Antonio Correia) além da escola que recebeu o encontro, a Benigno P. de Araújo. O mestre de cavalo marinho Zé Borba também se apresentou, possibilitando uma rica vivência da comunidade com a cultura popular pernambucana.

A vice-presidente da Fundarpe, Antonieta Trindade, falou sobre o projeto: “Temos o intuito de integrar cultura e educação, de um modo que possibilite aos alunos da escola pública o acesso a conteúdos para além da grade formal, queremos dar ao aluno a oportunidade de sonhar, de ver e conhecer sobre a cultura do estado e do país”.
A exibição do curta-metragem criado por estudantes do curso de iniciação audiovisual do projeto Cine Cabeça, “A Hora da Saída”, deu início à programação, que abriu espaço para uma apresentação de frevo e capoeira protagonizada por alunos do 2° ano da Escola Benigno P. de Araújo.
Grande vencedor do 2° Prêmio Pernambuco de Literatura, com o romance “Ascensão e Queda”, Wander Shirukaya, 37 anos, falou sobre sua vida, sua obra e o gosto pela literatura. Nascido em São Paulo, o escritor mora já há 22 anos na cidade de Itambé. Sobre o livro premiado, o escritor destacou que “é a história de quatro pessoas que compõem uma banda de rock amadora, mas por algum motivo o vocalista dessa banda acaba se matando. A morte gera curiosidade das pessoas ao redor, o assunto vira febre e toma dimensões enormes na internet. Isso faz com que a banda ganhe sucesso, mais pela morte do vocalista do que pelo próprio trabalho. No entanto, uma pessoa da banda que está vivendo o momento de ascensão não se sente confortável com essa situação, eis o conflito da narrativa do livro”.

Perguntado se a obra foi inspirada em algum caso próximo do autor e o seu processo de escrita, Wander afirmou: “Eu sempre procuro fugir um pouco da biografia, inclusive foi uma das dificuldades de escrever. Não que o autor não esteja na obra, sempre está refletido em algum ponto de vista, mas para evitar aquele tom da autoficção. Passei por algumas perdas, perdi um grande amigo que se suicidou por motivo banal, brigou om a namorada e resolveu tomar chumbinho. Outro amigo também foi assassinado, era baixista da minha banda. Alguns relatos podem ter servidos de ponte, mas o objetivo principal é fazer você lidar com a dor da perda”.
Questionado sobre a dificuldade de fazer a sua escrita chegar ao leitor, Wander ponderou que “é difícil, mas não impossível, a prova disso é este projeto, levando não só minha obra, mas a de outros autores para alunos e público em geral”. O escritor destacou ainda sobre a liberdade na escrita: “Quando estou escrevendo, não me importo de agradar ao máximo o leitor, claro que a gente quer ser lido, elogiado, mas no momento em que você se torna escravo disto, termina fugindo um pouco da sua ideologia. Eu não me ofendo se o leitor não gostar do livro, mas eu quero escrever as coisas que eu penso”.

No debate com os estudantes, Wander ainda teve a oportunidade de responder sobre o ofício de escritor: “É como se eu trabalhasse para bancar minha escrita. É como quem trabalha com arte, sabe que arte não enche barriga, e tem que buscar outros meios pra investir nisso, infelizmente. Mudou minha vida porque me sinto ligado à literatura, mesmo hoje que voltei a desenhar, não penso em largar a literatura, pois ela está comigo não só como uma maneira de relaxar, extravasar, mas de conhecer as pessoas e me relacionar com elas. Conhecer a literatura me fez entender melhor o outro”.
Perguntado sobre a discriminação com o meio artístico e literário que ainda existe na região e se o escritor já sofreu algum tipo de preconceito, o escritor foi enfático: “Sim, bastante! A música ainda tem um pouco mais de divulgação no mercado, mas mesmo assim bandas culturais locais também sofrem com o tratamento diferenciado de uma banda da mídia, por exemplo. Sofri preconceito porque, infelizmente, temos a cultura de achar que artista é vagabundo. É costume da sociedade valorizar o que é de fora, e julgar os artistas ao nosso lado”.

Finalizando as atividades da manhã, o mestre Zé Borba, mais conhecido como Homem da Mata, deu um verdadeiro show de cultura popular com muito cavalo marinho, maracatu, forró, entre outros ritmos pernambucanos. O cantor nasceu em Condado e reside hoje no distrito de Caricé. Brincante de cavalo marinho desde os sete anos de idade, participou da minissérie “A Pedra do Reino” e da série de TV Oncontô, projeto de Jorge Mautner para ATV Brasil. Foi também ator principal do curta-metragem “O Homem da Mata”, de Antônio Luiz Carrilho.

 
-
-
Todos os direitos reservados à Anderson Pereira. Obtenha prévia autorização para republicação.
-