segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Economia: Indústrias investem em qualificação e mudam vida de trabalhadores na PB


Jovens largam pesca e agricultura para ingressar no trabalho formalizado. Iniciativa capacita 1.200 pessoas dos municípios de Alhandra e Pitimbu.

Os vinte e nove quilômetros de litoral compuseram durante anos o maior horizonte para Juliana Dantas Paiva. Aos 20 anos assumiu para si a condição de pescadora em Pitimbu, cidade distante a 70,9 km da capital paraibana, João Pessoa. Os únicos cálculos que fazia eram os da alternância das marés, fluxo dos cardumes e orientação dos ventos. Viveu essa 'onda' durante cinco anos, mas queria mais. Nove anos separam a Juliana pescadora da Juliana instrutora de cursos técnicos e empregada no setor industrial. Foi a maré dos cursos técnicos oferecidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) que a levou de vez para bem distante do mar como território de trabalho. “É uma atividade muito puxada. Não dá pra conciliar com casa, filhos e estudos. Cansa muito”, sintetiza.

Juliana Dantas Paiva é um dos 1.200 jovens das cidades paraibanas de Alhandra e Pitimbu, no Litoral Sul, que conseguiram sentir na própria pele parte dos efeitos da expressão 'desenvolvimento local' com a chegada da indústria na região. Seja em Pitimbu, seja em Alhandra, mais que vocação, a pesca e agricultura se apresentam para os jovens como destino. Eles apreendem com a família os ofícios dos próprios pais, tios e irmãos mais velhos. A motivação para estudar e dar os primeiros passos para mudar de vida vem da instalação de uma fábrica de cimento, que deve começar a funcionar em Pitimbu em 2015.
Em agosto de 2012, Juliana se inscreveu no curso de pedreiro oferecido pelo Senai em uma ação articulada com a Brennand Cimentos, as prefeituras de Pitimbu, Alhanda, governo do Estado, Fiep e a +Consultoria Social. A iniciativa se destinou a inserir parte da população em cursos técnicos para criar mão de obra qualificada nas duas cidades, para atuação mais adiante na empresa cimenteira.

O interesse pela construção civil fez Juliana ir além. Ela fez também os cursos de montador de andaime, instalador hidráulico e o de carpinteiro. Se deu tão bem que meses depois já estava em sala de aula enfrentando outro desafio profissional como professora de curso técnico no próprio Senai. “É uma experiência inexplicável. Você ao mesmo tempo que aprende está ensinando às pessoas. É tudo muito gratificante”, define.
Da lida com a pesca, às vezes iniciada às 4h e encerrada ao entardecer, Juliana Dantas chegava a fazer apenas R$ 18 por dia, o que não ultrapassava os R$ 500 ao final do mês. Na nova profissão, a multi-tarefas recebe R$ 900, mas faz uma ressalva. “Fora os extras que sempre faço. Depois do curso não só consegui emprego como tive outras oportunidades como autônoma. Agora, sempre aparece trabalho”, conta.

De licença gestante, Juliana tem projetos para colocar em prática assim que começar a conciliar o trabalho com os cuidados da filha que está com apenas 15 dias de vida: retomar o trabalho e estudar para fazer faculdade de engenheira civil. Outro sonho dela tem formas mais concretas: onze metros de comprimento por nove de largura. A casa própria está apenas na base, mas Juliana visualiza mentalmente da forma de fazê-la até a concretização. “Tive que dar uma 'paradinha' por conta da gravidez, mas o meu maior sonho é construir a minha casa”, explica.
Sonho realizado: a carteira assinada pela primeira vez

Sob o sol escaldante, Dailton Simões Silva trabalhou durante anos ao ar livre como Juliana, mas um pouco mais distante do mar. Ajudava os pais agricultores em um sítio. A expressão 'acordar com as galinhas' não era mera brincadeira. Muitas vezes, se levantava às 4h por ainda ter que percorrer 15 km até a propriedade onde a família planta até hoje frutas, feijão e raízes, como macaxeira, inhame e batata doce.

A agricultura como 'herança' nunca foi aceita como algo definitivo por Dailton, que nesse tempo fez os cursos de bombeiro civil e primeiros socorros, mas foi a oportunidade dos cursos técnicos em Pitimbu que o fizeram se encantar com a mecânica. Em vez de manipular a terra, frutas e verduras, Dailton se tornou eletromecânico e tem todos os dias, de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h, um painel central automatizado com comandos para várias operações. “Estou fazendo um treinamento para operar o painel central que tem vários comandos da produção de cimento. Aprendendo todos esses métodos já estou pensando em fazer um curso técnico em química e depois o superior”, diz.
O maior sonho de Dailton veio por tabela. Ao ser inserido no mercado de trabalho, no dia 1º de setembro de 2014, Dailton teve pela primeira vez na vida a carteira de trabalho assinada. “Eu sempre sonhei em ter a carteira assinada. Meu sonho foi atendido por Deus que só vem realizando coisas boas na minha vida desde esse curso”, comemora.

Para o professor do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal da Paraíba, Eládio Brennand, a explicação para a empolgação dos jovens de Alhandra e Pitimbu com os cursos técnicos do Senai  poderia ser dada em uma palavra: inclusão. Para isso, o pesquisador explica que além do aceno do empresariado, é preciso que haja política pública que incentive tanto a atividade industrial como iniciativas de formação profissional. “A importância dos cursos técnicos é ditada pelo mercado que precisa de mão de obra com qualificação”, enfatiza.

Foi com o incentivo na qualificação da mão de obra que o pedreiro Audérico Gonçalves, 22 anos, deu os primeiros passos para trabalhar com operador industrial júnior. Segurança é a palavra mais usal entre os jovens da região para explicar direitos trabalhistas: férias, 13º, fundo de garantia. “Era muito difícil arrumar serviço por aqui e quando aparecia era sem carteira ou ir para pesca. Com a carteira assinada eu me sinto mais seguro. Agora penso em fazer faculdade e quero crescer dentro da empresa”, conta.

Doutor em Ciências pela Universidade Livre de Bruxelas, Eládio Brennand aponta que os cursos técnicos ligados à indústria tem um papel importante na formação de mão de obra específica. “É uma oportunidade de inclusão muito viável que ainda necessita de reconhecimento social. O profissioinal precisa ser um pensador preparado para executar tarefas. No Brasil, os cursos técnicos não têm o reconhecimento devido porque temos uma tradição de valorização do ensino superior”, contextualiza.
Setor industrial deve absorver 25 mil trabalhadores na PB até 2017, diz Cinep

Até 2017, muitos sonhos por empregos com carteira assinada e ingresso no mercado de trabalho devem ser consumados, caso a projeção da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (Cinep) se confirme: 25 mil vagas formais desde 2011, quando começaram os incentivos e atração a 195 empresas.

A atração de empresas é um dos componentes de atenção que o setor industrial deve ter na opinião do professor Eládio Brennand. Mesmo durante a guerra fiscal entre os estados, o pesquisador reforça que cabe ao poder público pensar em políticas para o setor. “Como o acesso à mão de obra qualificada pelas indústrias vai se desenvolver depende também das políticas governamentais que incentivem ao setor industrial com a formação profissional”, frisa.

Francisco Carlos da Silveira, que coordena o projeto 'Mãos dadas com o futuro' em andamento em Pitimbu e Allhandra desde 2012, ressalta que a concretização da iniciativa só foi possível também por conta do envolvimento dos poderes públicos municipais e estadual. Nas duas cidades, as prefeituras transformaram os ginásios de esportes em centros de treinamentos e o Senai levou unidades móveis para os cursos oferecidos.

Para evitar a evasão dos alunos matriculados das salas de aula, o projeto incluiu a garantia do transporte gratuito para o local dos cursos e cada matriculado recebe uma cesta básica por mês como ajuda. Francisco Carlos da Silveira conta que esses cuidados garantiram uma confirmação de 97% de frequência nas aulas. “A maioria está trabalhando na obra da empresa (indústria cimenteria que está se instalando na região) e ao término da construção em 2015 a mão de obra vai sendo absorvida”, afirmou.

Em 2015, quando a indústria cimenteira começar a funcionar em solo de Pitimbu, os sonhos de Juliana, Dailto, Audérico talvez já sejam outros, mas, nesse ínterim, eles venceram obstáculos e o próprio destino posto como definitivo e provaram que o conhecimento gera mudanças e inclui socialmente. “Quero crescer nesse trabalho e poder dar de tudo do melhor para o meu filho. Eu trabalho para que no futuro ele estude, faça faculdade e tenha uma carreira por ele escolhida”, projeta Dailton.
G1

1 Comentários:

Adriano Manoel disse...

FIZ PARTE DESSA HISTORIA

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