24 abril 2017

Prejuízo: As vítimas do fracasso da PPP de Itaquitinga

Apesar da retomada das obras, fornecedores e trabalhadores terceirizados ainda não sabem se serão indenizados

Desemprego, dívidas, perda de bens, empobrecimento e até morte. Dentre as perguntas ainda sem respostas que envolvem a polêmica construção do Centro Integrado de Ressocialização de Itaquitinga (CIR), na Zona da Mata Norte de Pernambuco – citada nas delações da Odebrecht na Operação Lava Jato como um dos supostos instrumentos de captação para caixa 2 de campanhas do PSB – estão quando e quem vai pagar o prejuízo de centenas de famílias da região?
São trabalhadores que atuaram na construção ou em serviços de apoio ao canteiro do complexo prisional, assim como pequenos e médios empresários contratados pelo consórcio privado Reintegra Brasil ao qual o governo de Pernambuco delegou, em 2009, a tarefa de construir o prédio, garantindo um futuro investimento de R$ 1,9 bilhão ao longo de 30 anos pelo gerenciamento do CIR.
Desde a paralisação das obras em 2012 e mesmo com a retomada em janeiro de 2017, após o fim da parceria público-privada, eles permanecem sem saber quando serão ressarcidos pelos serviços prestados e danos acumulados.
Na zona canavieira, a cerca de 60 quilômetros do Recife, o moderno presídio, que serviria de modelo para o mundo, significava oportunidade de emprego, renda e até prosperidade para operários, autônomos e comerciantes acostumados a depender dos períodos de safra da cana de açúcar. Pelo porte do empreendimento e promessas de melhorias estruturais em Itaquitinga, o medo de ter criminosos como vizinhos cedeu lugar à chance de ver a economia da região prosperar, incluindo não só Goiana, Igarassu e Condado, mas também Araçoiaba, São Lourenço, Carpina e outros próximos. Mas isso só até 2012.
“A gente investiu na oportunidade. Tinha a chance de continuar trabalhando por 30 anos, tempo que duraria o contrato para o consórcio gerenciar o complexo”, conta João Pacheco, um pequeno transportador de Araçoiaba, no Grande Recife. Tinha seis ônibus usados, mas chegou a operar com 18, contratando serviço para atender o transporte de operários para a construção do complexo. Quando os pagamentos foram suspensos a partir de 2012, Pacheco e o pai trocaram as horas de sono por uma vigília forçada. “A gente estava devendo na praça. Era muita pressão, aperreio, noites sem dormir. Meu pai não aguentou. Infartou e morreu”, conta, emocionado. Na região, o pai dele não teria sido o único. O proprietário de um restaurante de Itaquitinga e o dono de uma marcenaria também tiveram a morte atribuída ao fracasso no investimento.
Antônio Carlos Condado, transportador que perdeu a frota e hoje arrisca-se na agricultura para tentar pagar as contas, já contou 302 credores e a soma de R$ 30 milhões a ser recebida pelos empresários, a preço de 2012. A construção do CIR, orçada em R$ 350 milhões e bancada inicialmente com empréstimo do Banco do Nordeste (BNB) concedido ao consórcio privado, gerou a esses terceirizados pagamentos em dia somente nos três primeiros anos.
Fornecedores e terceirizados esperam indenização do Estado “Em 2013 fomos surpreendidos pelo governo de Pernambuco com a troca de empresas no consórcio responsável pelo presídio”, relata Antônio Carlos. Ele acusa a DAG Construtora, que teria assinado contrato para substituir a Socializa Empreendimentos e a Advance Construções, de negar o pagamento das dívidas do consórcio, embora, segundo o transportador, esse compromisso tenha sido assumido num contrato de transferência assinado em 29 de abril de 2013. “O calote desencadeou um pesadelo. Nossas empresas estão sucateadas. Nos resta agora apelar ao governo do Estado, que ao decretar a caducidade da PPP, nos indenize. Precisa haver um olhar mais humano para a situação da região. A DAG não nos recebe e o governo do Estado se nega a negociar. Estamos pagando o preço do calote nesse desencontro dos tubarões”.
O motorista Ivanildo Fragoso, 63 anos, já ofereceu até o único bem, a casa, como garantia de pagamento de uma dívida que se acumula no mercadinho do bairro, em Condado. Ele trabalhava numa das empresas que prestava serviço ao canteiro. “É a maior humilhação que já passei na vida. Tomo conta de quatro netos e a vida está ruim demais. Político tá numa boa. Mas pra gente, motorista, que passava a noite atolado com os carros, só ficou dívida, fome, tristeza e sofrimento”, compara depois das notícias sobre a delação.

O JC tentou falar com as empresas citadas na matéria, mas não conseguiu.
 
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