quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Criada em Goiana em 1930: 'Nação Pretinhas do Congo' sobrevive a mais um Carnaval na Mata Norte

Criada em Goiana em 1930, a Nação Pretinhas do Congo mostra a vida no tempo da escravidão, mas falta de apoio ameaça sua história

“Ô, pretinha do Congo. Por onde vai. Senhor São Lourenço. Pra onde vai. Senhor São Lourenço vai festejar”. Esse é um trecho de uma das músicas cantadas na Nação Pretinhas do Congo. Quem cantarola, com esforço para lembrar-se de outras composições da brincadeira, é a dona de casa Iracema Ribeiro da Silva. Ela é filha de Dona Maria do Carmo, herdeira da toada carnavalesca Nação Africana Pretinhas do Congo de Carne de Vaca, criada no município de Goiana em 1930.

A brincadeira mostra como era a vida no tempo da escravidão, celebrando as lembranças dos antepassados. Apesar de se aproximar dos 90 anos de celebração e ocorrer exclusivamente na cidade do Litoral Norte do Estado, há poucos registros históricos que expliquem a origem desta manifestação cultural. “Minha mãe dizia que meu avô Antonio Manuel dos Santos, conhecido como Pirrixiu, conheceu um senhor da Paraíba e depois ficaram amigos. Este senhor teria perguntado ao meu avô se ele queria ficar com a brincadeira, e meu avô aceitou”, conta Iracema. 

Com o passar dos anos, a mãe de Iracema tomou a frente do grupo, que hoje conta com cerca de 30 integrantes. “As Pretinhas do Congo era o grande orgulho dela, lembro que antigamente as meninas tinham que pintar o rosto de preto e as cores das roupas eram vermelho, amarelo e preto, mas não lembro o significado disso”, explica a dona de casa. Dona Carminha faleceu em 2016, no dia 7 de fevereiro, em pleno Carnaval. No mesmo dia em que suas pretinhas desfilavam pela cidade. Com ela também partiram as memórias históricas sobre essa Nação. 

“Temos muito medo que esse legado se perca. Muitas vezes era ela que colocava dinheiro para conseguirmos sai no Carnaval. Nem as pessoas daqui de Carne de Vaca sabe que ainda existimos”, relatou Rafaela Ribeiro, neta de Dona Carminha.

No município também existe outro grupo, chamado Nação Africana Pretinhas do Congo no Baldo do Rio, do Mestre Val, datado de 1936. No livro “Uma Nação Africana na Jurema da Mata Norte, Pretinhas do Congo de Goiana”, de Severino Vicente da Silva, é possível fazer um resgate histórico dessa brincadeira, diante da escassez de material a respeito dela. 

Sem auxílio do poder público, a tradição africana corre o risco de se perder nos próximos carnavais. “Nós temos poucas condições financeiras. As Pretinhas são muito importantes para o Carnaval, mas poderia estar melhor, mais organizada”, relatou o tocador de caixa, Severino Ribeiro. Mesmo estando a poucos dias do Carnaval, o grupo ainda não sabe se irá fazer parte da programação da cidade. Amanhã, elas se apresentarão na Casa da Cultura, no centro do Recife.

“Nós que corremos atrás para conseguir espaço para as Pretinhas. Essas manifestações também precisam ter assistência especial e fazer parte do calendário cultural da cidade. A história para ser preservada precisa ser fortalecida”, declarou o presidente da Associação Carnavalesca dos Caboclinhos e Índios de Pernambuco, Erivaldo Francisco. 

Projeto reformou estandarte

O cenário precário em meio às dificuldades de renda, presentes desde sua criação, no início do século XX, não parece ter mudado muito. O grupo é formado majoritariamente por mulheres. Existe a figura do Rei e da Rainha e o toque das músicas tem semelhança com o Baque Virado. O figurino é muito simples, e se não fosse o projeto “Goyanna Terra Indígena”, elas não teriam condições de reformar o simbólico estandarte do grupo. 

A oficina reuniu quinze agremiações dos municípios pernambucanos de Goiana, Itaquitinga e Itambé que vão desfilar no Carnaval deste ano. A iniciativa, da Fiat Chrysler Automobiles (FCA), mobilizou diretamente cerca de 3.000 pessoas ligadas à cultura popular da Zona da Mata Norte de Pernambuco e alunos da rede municipal de ensino de Goiana. Foram 10 meses de trabalho. 

“Como cidadãos corporativos de Pernambuco, temos como prioridade participar ativamente da vida econômica, empresarial, cultural e social no Estado. Conhecemos bem a importância e o valor que o Carnaval tem para os pernambucanos, que possuem uma das festas mais diversas e culturalmente ricas de todo o Brasil”, afirma Fernão Silveira, diretor de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade da FCA para a América Latina. 

Segundo o produtor cultural Osmar Barbalho, responsável pelo projeto, a oficina partiu de uma necessidade concreta das comunidades. As alegorias utilizadas pelos grupos que participaram do projeto estavam muito desgastadas e sem condições de uso. A confecção das novas peças demandaria de cada agremiação entre R$ 5 mil e R$ 8 mil, dependendo do tamanho do estandarte e demais adereços.

“As técnicas que os brincantes usavam para produzir os estandartes não tinham durabilidade suficiente para suportar a brincadeira sob sol e chuva. Durante a oficina, a partir das orientações de Manoelzinho Salustiano, as novas peças foram elaboradas para durar entre cinco e 10 anos, dependendo da forma como forem guardadas”, explica Osmar.

 
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