sábado, 30 de dezembro de 2017

Goiana: Exposição revela o terreno simbólico nas obras do artista Iezu Kaeru

Exposição itinerante “Labirinto de Cabras e o Touro de Mármore”, do artista, fica em cartaz até 10 de janeiro no Sesc Ler Goiana. Por: Juliana Almeida, Especial para a Folha de Pernambuco

Abusando de experimentações e mistura de técnicas, o fotógrafo e artista pernambucano Iezu Kaeru criou 22 obras que, fluindo entre documentais e contemporâneas, abordam a relação simbólica entre os seres humanos e a natureza. A mostra itinerante “Labirinto de Cabras e o Touro de Mármore” está em cartaz na cidade de Goiana, onde permanece até 10 de janeiro no espaço do Sesc Ler, com entrada gratuita. Na sequência, "Labirinto...", que tem curadoria de Eder Chiodetto, segue para Garanhuns, onde deve permanecer até março. 
As composições foram construídas entre 2007 e 2015 com cenas de diversas cidades do Brasil. O artista utilizou variados tipos de câmeras (digitais, analógicas e mesmo de celulares) para criar as imagens que compõem a mostra. “Para a feitura das imagens utilizei dispositivos e ferramentas diversas: três tipos diferentes de smartphones (em alguns casos usando lentes acopladas aos aparelhos celulares), câmeras digitais profissionais, várias câmeras analógicas (algumas delas quebradas ou com a lente danificada), filmes vencidos (preto & branco e coloridos) e câmeras artesanais feitas com lata”, descreveu Kaeru. 
Os registros foram feitos pensando em expandir o terreno simbólico da fotografia documental. “Kossoy disse que ‘a imagem fotográfica, entendida como documento/representação, contém em si realidades e ficções’. Acredito que ‘Labirinto é isso, é o exercício de uma curadoria da alma, uma imersão nos meus erros, nos meus fantasmas, inquietações, pássaros de sangue do inconsciente, minha poesia e meu silêncio, na busca por uma fotografia autoral, aberta aos registros intimistas, às banalidades, subjetividades e experiências estéticas do dia a dia”, relata. 

“A fotografia documental tanto pode retratar o real como também construir outras realidades que não estejam presas à razão”, completa. As imagens foram impressas de forma a possibilitar uma garantia de longevidade de 150 anos a obras e fidelidade às tonalidades e cores presentes nas imagens.

Serviço:
Exposição "Labirinto de Cabras e o Touro de Mármore", de Iezu Kaeru
Visitação: até 10 de janeiro de 2018, segunda a sexta, 9h às 12h e 14h às 17h
Onde: Museu de Arte Sacra Escritor Maximiano Campos, SESC Ler - Rua do Arame, s/n, Centro, Goiana - PE.
Entrada gratuita

Entrevista // Iezu Kaeru

Como explicar para o público em geral a diferença entre esses equipamentos e como elas influenciam no resultado final? 

Cada máquina fotográfica é um mundo. Assim como cada pessoa. Podemos sair juntos para fotografar o mesmo assunto, mas as imagens que faremos serão diferentes: nossos olhares são diferentes, assim como nossas percepções de mundo. Somos resultado de tudo que vivemos ou deixamos de viver, de tudo que sonhamos. Quando construímos uma imagem com uma câmera feita com lata ou com uma analógica quebrada, a fotografia terá características estéticas bem particulares, assim como é bem diferente a relação com o(a) fotografado(a) quando você está usando uma câmera artesanal. Uma coisa que observo também é que quanto menor o dispositivo, maior é a aproximação com as pessoas: o tamanho da câmera às vezes pode intimidar. Máquinas menores são mais discretas e facilitam o encontro. O essencial é respeito e empatia, falar de fotografia é falar de relação.

Como foi tecer esse diálogo entre a fotografia documental e contemporânea? Que elementos de cada uma você pode citar e que foram justapostos nas imagens?

Algumas imagens presentes em "Labirinto de Cabras e o Touro de Mármore" poderiam integrar outras abordagens de caráter mais documental, se trocássemos o contexto em que elas estão inseridas. Eu acho massa ver uma coisa virando outra, uma obra que se transforma em outra; uma mesma imagem pode causar reações e interpretações totalmente diferentes dependendo de como elas são mostradas, por exemplo. 
Nós temos mesmo é que "desencaretar" a fotografia de vez: tem muita gente nova arrebentando por aí, surfando na onda da contemporaneidade. Nesse trabalho buscamos construir imagens que dialogassem muito mais a partir de contrastes umas com as outras do que por semelhanças. Um elemento importante na obra é a presença de dípticos e trípticos (que são imagens diferentes que se tocam, tornando-se uma só). 

A produção durou anos e percorreu cidades. Essas datas e locais interferem na apreciação da obra? Quais seriam eles e o que eles (os diversos locais e as várias datas) têm em comum?

As fotografias foram feitas nos últimos dez anos, a maioria delas em Pernambuco - em lugares como o Morro da Conceição, Fazenda da Macuca, Olinda, Candeias, Campo Grande, Comunidade do Pilar e outras comunidades. Fotografei também minha mãe e fiz apropriações artísticas de álbuns de família de pessoas próximas. Todavia, há imagens selecionadas pelo curador que foram produzidas em outros lugares como Rio de Janeiro, Buenos Aires, Alagoas... Penso que quando fotografamos buscando por nós mesmos nas imagens, por nossa essência, é como se algumas imagens nos escolhessem para serem fotografadas. Eu aprendo muito, sobretudo sobre mim, quando revisito meus bancos de imagens para construir uma lógica de mostrá-las ao público no formato de uma exposição, lugar onde se interseccionam o universo do autor com o dos espectadores. Quando fotografo, não penso: vivo a imagem. Busco outrar-me. Tento ser um com a paisagem, tornar-me um com as pessoas fotografadas. E quão melhor é quando há gente! "Labirinto de Cabras e o Touro de Mármore" trata de poesia, mitologia, tarô, mistério, incompletudes... costumo falar que levei meus fantasmas, erros e demônios pro Eder [Chiodetto, o curador] organizar.

 
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