quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Homenagem: Goiana da gente querida

Por Jacques Ribemboim, economista ambiental e engenheiro de petróleo

Na Revista do Instituto Arqueológico Pernambucano vol. XXIX, de 1928, Mário Melo escreveu que o nome da cidade de Goiana provinha do tupi e derivava de uma espécie de goiaba típica da Mata Norte, fato que ensejou veementes protestos dos intelectuais do município, tendo à frente Ângelo Jordão Filho, autor do livro Povoamento, Hegemonia e Declínio de Goiana. O grupo defendia a tradução de Varnhagen, segundo o qual, o nome quer dizer “gente estimada”.

Não obstante à reação dos goianenses, Mário Melo não voltaria atrás, alegando que guaia significava “roliço” e que o monossílabo na designava “semente”. O jornalista chegou a dizer que Varnhagen podia entender de história, mas não de nhengatu (língua tupi), e evocou Batista Caetano, renomado tupinólogo, que corroborava a tese de que guiá era uma fruta do gênero psidium, do tipo das goiabas e araçás. Destacava, ainda, que o próprio Rodolpho Garcia, da Academia Brasileira de Letras, confirmava sua versão.

Apesar da certeza de Mário Melo (sempre polêmico), não se pode garantir nem mesmo que a goiabeira seja nativa das Américas e, se assim o for, o nome goiaba parece ter sido importado na América Central.

Consta que foi Gabriel Soares de Souza quem fez o mais remoto registro do termo, em seu Tratado Descritivo do Brasil, datado de 1587, e quatro décadas depois, um outro cronista de época, Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil, de 1627, daria a primeira explicação para o topônimo pernambucano Gueena, como sendo “ancoradouro em um vale”, do tupi gua yai.

Para emaranhar o debate, Teodoro Sampaio, grande especialista em línguas brasílicas, comenta em seu Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, de 1922, que o nome talvez derive de uma planta local ou que provenha de gueena, gerúndio de gueê, cuja tradução seria algo como “vomitando”.

Neste ponto, Mário Melo retorna à cena evocando um certo Benjamim Solari, que teria proposto a tradução “terra onde abundam as águas”, versão até hoje bastante aceita entre os goianenses. Ao que tudo indica, porém, Mário teria agido por ironia, posto que Solari era um artista argentino, que tinha fama de profeta, ouvindo vozes do além e tendo visões. E como se não bastasse, lucubrou que Goiana poderia significar, quem sabe, “flor da cana” (note-se que Mário Melo concedeu nomes oficiais a muitos municípios pernambucanos, usando termos do tupi, no período em que chefiou a Comissão de Reforma Administrativa do Estado, entre 1938 e 1942).

Para acalorar o debate, vamos aqui levantar duas novas hipóteses. A primeira, de que o termo provenha do hebraico gói ani, que significa “gentio pobre”. Sabe-se que, no século 16, havia em Tejucupapo e seus arredores uma comunidade cristã-nova judaizante, inclusive com sua pequena esnoga, no partido de cana de Diogo de Paiva. Deste modo, os índios seriam este “gentio pobre”, de modos primitivos para os padrões europeus.

A segunda hipótese é a de que o nome tenha sido dado por franceses que por ali faziam contrabando de pau-brasil deste os primórdios da colonização. O termo teria origem no gascão Guyenne, como era conhecida a região da Aquitânia Francesa, em sua porção atlântica, durante o apogeu náutico de suas principais cidades.

Enquanto o debate continua por aqui..., lá na Guiana Francesa, país limítrofe ao norte do Brasil, chegou-se a um consenso, por mais esdrúxulo que possa ser: Guiana quer dizer “aquilo que não tem nome”. E ponto final.

(*) Este artigo é uma homenagem ao centenário Instituto Histórico de Goiana e seus sócios, na pessoa do presidente Harlan Gadelha Filho.

DiariodePernambuco

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