sábado, 31 de outubro de 2015

Males: Mulheres relatam violência trazida pelo desenvolvimento em Goiana e no Cabo

Pernambuco passou por grandes mudanças na economia nos últimos anos, com crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) chegando a 7,7% em 2010, por exemplo. Um grande motor para isso foi Suape, no Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife. Diante da pergunta anterior, você pode estar pensando que foi lá onde o tal desenvolvimento chegou, mas não é bem assim. Com a chegada de novos trabalhadores sem que os serviços públicos acompanhassem o aumento da demanda, aliando isso ao machismo, a insegurança das mulheres também cresceu, principalmente ligada à violência sexual.

Goiana, na Zona da Mata Norte, agora é a menina dos olhos, é o novo polo desse tal desenvolvimento. Fábricas como a Jeep e a Hemobras já chegaram por aqui, porém ainda não há sequer garantia de assistência social. Além de refazer a pergunta que inicia a matéria, agora questiono: será que a história vai se repetir? A filha da manicure Ednalva Silva, 35 anos, tinha 15 anos quando, enquanto voltava de um ensaio da banda marcial da escola, no bairro de Fleixeiras, foi abordada por dois homens. Foi estuprada, agredida e teve todo dinheiro e celular roubados. Ednalva não tinha carro para trazê-la ao Recife para tomar o coquetel anti-HIV nem a pílula do dia seguinte e não havia viaturas suficientes da polícia para isso. Pegou R$ 200 emprestados e trouxe a menina para o Hospital Agamenon Magalhães, no Recife. Os traumas físicos já passaram, mas a garota ainda vive com medo e não sai sozinha. A mãe já consegue dormir sem ter pesadelos, mas não esquece a data quando isso aconteceu: 14/09/2015. E, embora não pudesse fazer nada para evitar o crime, ainda guarda o sentimento de culpa. "Não sei quem fez isso, se foi alguém de fora ou que chegou com essas empresas. Só sei que a gente achou que as coisas iriam melhorar, mas (a violência) ficou pior", reclama.

A estudante de direito Camila Mesquita, 19, relata um fato que gerou repercussão na cidade há dois anos: "Uma menina foi chamada para uma das festas que os homens do Exército, que trabalhavam na obra da BR (101), davam. Eles davam cocaína a elas. Essa menina teve uma overdose e, enquanto morria, foi trancada na casa por eles", relata. "As meninas ficam atraídas por esses rapazes que vêm de fora, acreditando que eles têm dinheiro e podem mudar a vida delas", opina.
Jacira da Silva, 22, também estudante, conta que se constrange diariamente por causa das cantadas que recebe. Mas essa violência está até nos comentários das próprias mulheres: "Cantada não é violência porque as meninas procuram; ficam andando com peito e bunda de fora, então estão querendo o quê?", questionou a comerciante Maria do Carmo da Silva, 55. "Acham que porque a mulher usa shortinho podem dar em cima, mas não é assim. Tem que ter respeito e isso também é uma forma de abuso", afirma Jacira. Para ela, o ideal seria o diálogo com os trabalhadores e com as mulheres.

Os relatos são fortes, mas Goiana não é uma cidade que se destaca nas estatísticas pernambucanas nem há confirmação de que houve um aumento nos registros de agressão após o início do crescimento econômico da cidade. De acordo com a secretaria estadual da Mulher, foram 160 boletins de ocorrência por diversas formas de violência entre janeiro e agosto deste ano, enquanto a soma das 10 delegacias especializadas foi de 6.719. "A gente sabe que existe subnotificação reprimida", pondera Bianca Rocha. De acordo com a diretora, quem for vítima pode procurar o Centro Especializado de Atendimento à Mulher em Situação de Violência e a Delegacia da Mulher (os endereços estão abaixo da matéria). "O objetivo é divulgar que a cidade tem estrutura para a mulher pedir socorro, ajuda", afirma. O NE10 entrou várias vezes em contato com responsável da Prefeitura de Goiana sobre o assunto, Simone Maia, mas não teve retorno.

A Coordenadoria da Mulher também não aceitou nenhum dos convites da ONG Action Aid para que o município integrasse a campanha Cidades Seguras para as Mulheres. Foi o projeto, realizado em parceria com o Centro das Mulheres do Cabo, que conseguiu conscientizar centenas de meninas que vivem no entorno de Suape sobre a violência que elas estavam vivendo. Lá, segundo uma pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde, mais de 40 meninas engravidaram na faixa de idade entre 10 e 14 anos só entre 2012 e 2014. O número das que tiveram filhos com idades entre 15 e 18 anos foi de 800. "São meninas na idade do encanto, de mudanças, e esse momento não é respeitado; tira-se proveito disso", lamenta a coordenadora do Centro, Nivete Azevedo. Outros dados que mostram essa realidade ainda estão sendo fechados.
Azevedo conta que as agressões passaram a acontecer em qualquer lugar, até nos mais movimentados, como a área central das cidades. Para conter isso, era necessário denunciar o problema e tentar empoderar as mulheres. "Em muitos casos esses episódios eram banalizados ou naturalizados naquela cultura em que os homens podem tudo. Têm que entender que as mulheres não estão à disposição dos homens", lembra Azevedo.

Depois disso, o Centro das Mulheres do Cabo, em parceria com o Instituto Fonte, inscreveu um projeto em um edital da União Europeia para começar a atuar em Goiana. "Esse processo ainda está iniciando lá. Se for aprovado, vamos poder levar a nossa experiência", afirma Azevedo. "Não é fácil que elas se identifiquem como grupo vulnerável".

O processo de análise do projeto, porém, é rigoroso e não tem previsão para ser concluído. "O Estado de Pernambuco está cometendo o mesmo erro de trazer o desenvolvimento sem dar assistência social", acusa a assessora de Direitos das Mulheres da Action Aid, Jéssica Barbosa. A especialista afirma que houve um período em que tentava falar com a Prefeitura de Goiana todos os dias para levar o Cidades Seguras para as Mulheres para a cidade, sempre sem sucesso. "Estamos tentando nos antecipar aos prejuízos que esse desenvolvimento pode trazer, mas não há uma valorização dessa questão, o que você percebe até pelo organograma da gestão", afirma Barbosa. Simone Maia acumula políticas públicas para as mulheres, para as crianças e para a juventude.

O Governo de Pernambuco, no entanto, não vê a situação assim. "Ao contrário do que houve no Cabo, o governo pactuou com a Fiat a contratação de pessoas da região", defende a diretora geral de Enfrentamento à Violência de Gênero em Pernambuco, Bianca Rocha. Cerca de 80% dos funcionários na inauguração, este ano, eram pernambucanos. A Fiat foi contactada, mas não respondeu. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico afirmou que cabe a ela a atração dos investimentos, mas as políticas públicas para as mulheres são de responsabilidade de outras pastas, em trabalho articulado.

QUEM TEM MEDO DO ESCURO?
O relatório da Action Aid referente ao ano de 2014 apontou que todas as mulheres entrevistadas no Cabo afirmaram que iluminação dá mais segurança. O problema é que a cidade foi a de situação mais precária na pesquisa: 72% das ruas são pouco iluminadas, enquanto a média nacional é de 39,5%. A ausência desse serviço público já obrigou 98% das mulheres a desviar o caminho, por exemplo. O mesmo acontece em Goiana.
Fonte: Action Aid


Moradora da Rua do Sindicato, às margens de um canavial, a dona de casa Severina Maria da Silva, 38, reclama que a baixa iluminação aumenta a violência. "Quando a cana cresce a gente nunca sabe quem está dentro da plantação", diz. A filha dela, a estudante Renata Maria da Silva, 14, tem medo de ser estuprada ao voltar da igreja todas as terças e quintas-feiras, por volta das 21h. "Fico esperando alguém para voltar comigo e minha mãe fica na porta", revela. Nos outros dias, às 20h, já está tudo trancado por medo de assaltos.

Mesmo nas áreas mais urbanas da cidade, como a Rua Djalma Raposo, também considerada escura, o medo impera. A mãe de Camila Mesquita teve que correr para não ser assaltada próximo à Escola Benigno Pessoa de Araújo quando voltava da faculdade, por volta das 21h30. "É muito escuro, o que facilita as abordagens." A própria estudante foi abordada por três homens que desceram de um carro ao lado dela na mesma rua; nesse caso, a sorte foi que um carro de polícia - raro de se ver, segundo moradores - passava pelo local. "Não posso ver um homem de bicicleta e já fico com medo", conta. Os assaltos são o crime mais temido por todas as dez mulheres entrevistadas em Goiana. Para a dona de casa Josineide Targino, 51, isso é provocado pelo aumento no uso de drogas - problema também percebido no Cabo. "Até na sala de aula fazem isso. Mas, se aumentassem a iluminação, seria menos ruim".

No entorno de Suape, foi iniciada ação do "lanternaço", em que, dependendo da demanda de cada comunidade, as instituições vão com lanternas para lugares escuros e conversam sobre o medo. "Isso melhorou desde o início do projeto (Cidades Seguras para as Mulheres) em algumas áreas. Tem a Comunidade Onze Negras, que tem um acesso bem rural e era terrível ir da BR (101) até lá", conta Nivete Azevedo. O projeto surgiu no bairro do Passarinho, na Zona Norte do Recife, quando uma mulher estava em uma oficina e mostrou a luz que levava para poder chegar em casa com mais segurança. "Todas as mulheres já usaram algum artifício para desviar do medo, como evitar roupas curtas, usar os cabelos presos, não sentar na janela dos ônibus", lamenta a coordenadora nacional de Direitos das Mulheres da Action Aid, Ana Paula Ferreira. "São conjuntos de violência, não só a violência física. A mulher não pode exercer a sua cidadania plena, não pode estudar, se qualificar. Onde os serviços públicos são mais precários mulheres correm risco maior. Se a gente entende que as mulheres são as mais vulneráveis, se falarmos em cidades seguras para elas, automaticamente são seguras para todos. Mas não é um tema fácil, há um estigma de que é exagero".

NE10

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