sexta-feira, 17 de abril de 2015

Goiana: O canavial virou fábrica de automóveis

Unidade da Jeep, do grupo Fiat Chrysler, muda cenário industrial no Nordeste (Por Cleide Silva/Matéria especial do Estadão)

A Fiat Chrysler Automobiles (FCA) teve de aguardar três meses para iniciar a terraplenagem da área onde construiu a fábrica da marca Jeep em Goiana (PE) até que toda a cana fosse colhida. Terminada a safra, as máquinas entraram em operação e, pouco mais de dois anos depois, no lugar do canavial está a mais moderna fábrica do grupo ítalo-americano no mundo.

A espera para o início das obras em relação ao calendário oficial foi acertada entre a empresa e os produtores de cana, que fizeram uma permuta com o Estado e entregaram a área de 1,1 mil hectares para ser doada à FCA. A fábrica da Jeep, que será oficialmente inaugurada no dia 28, muda o cenário dessa região pobre da Zona da Mata pernambucana, antes identificada com a atividade usineira, a pesca e o trabalho precário.

A primeira montadora de veículos a ir para uma das regiões mais carentes do Nordeste está investindo R$ 7 bilhões, o maior projeto do setor automotivo em andamento no País. O valor inclui aportes de 16 fabricantes de autopeças instaladas no terreno.

O Polo Automotivo Jeep, como é chamado, gerou até agora 4,5 mil empregos diretos. Esse número total deve chegar a 9 mil ou 10 mil quando a fábrica atingir sua capacidade máxima de 250 mil veículos ao ano, em período ainda não definido.

Filho e neto de pescadores e cortadores de cana, Wellington Gomes Correia, de 39 anos, diz que ganhou o maior presente da sua vida no dia 22 de dezembro, quando foi selecionado para trabalhar no setor de pintura da Jeep. Dos 12 aos 28 anos, ele sobreviveu da pesca e do corte de cana, atividades que rendiam no máximo um salário mínimo da época ao mês.

Nos últimos anos, trabalhou como segurança e cobrador de ônibus e ganhava R$ 800 mensais. Na Jeep, recebe um pouco mais, e com direito a benefícios, como plano de saúde, que não tinha nos demais empregos. “Eu não tinha expectativa de melhorar de vida, hoje tenho. Quero crescer com a empresa”, diz Correia, que mora ao lado de um canavial no distrito de Tejucupapo com a mulher e dois filhos.
O mais velho, de 19 anos, também enviou currículo para a Jeep e aguarda resposta. Para cada vaga aberta, a empresa recebeu 55 inscrições. “Tivemos de reduzir a exigência de escolaridade e aceitar trabalhadores sem ensino fundamental completo”, informa Adauto Duarte, diretor de Recursos Humanos.

Correia frequentou a escola até os 14 anos e só retomou os estudos depois de adulto. “Consegui concluir o ensino fundamental aos 32 anos”, diz. Sua mulher, Berenize, conta que ele “achava que não tinha capacidade para trabalhar numa fábrica grande, mas eu o incentivei a mandar o currículo”. Agora, ele junta dinheiro para comprar um novo aparelho de TV e, no futuro, quem sabe um carro, o primeiro da família.

Preço. O Renegade, utilitário-esportivo produzido em Goiana está distante do sonho de Correia. O modelo começou a ser vendido na sexta-feira a preços que vão de R$ 70 mil a R$ 117 mil. Chega ao mercado num momento em que a indústria automobilística prevê queda de 13% nas vendas de veículos este ano, para cerca de 3 milhões de unidades. A FCA, contudo, está otimista em relação ao Renegade e projeta vendas de mais de 50 mil unidades neste ano, o que pode fazer do modelo o líder do seu segmento.

Os salários na nova fábrica estão na faixa de R$ 920 a R$ 1,6 mil, segundo fontes ouvidas pelo Estado. A empresa não quis divulgar esses dados. É pouco em relação à média paga por montadoras em outros Estados, mas atraente para uma região onde 54% dos trabalhadores ganhavam até um salário mínimo em 2010, segundo os últimos dados disponíveis pela Ceplan, consultoria econômica e planejamento, de Recife.
De acordo com a Ceplan, 43,8% da população ocupada de Goiana e dos municípios vizinhos de Igarassu e Itapissuma não tem instrução fundamental completa. “A herança da cana é maldita”, constata Jorge Jatobá, sócio-diretor da consultoria.

“A falta de formação e a questão da logística é um problema para a Fiat, mas é super positivo ter construído a fábrica em Pernambuco”, diz José Roberto Ferro, presidente do Lean Institute Brasil. “Não tem sentido uma região que cresce acima das outras não ter uma indústria automotiva forte”.

Na opinião de Ferro, a Fiat deve repetir em Pernambuco o que ocorreu com a região de Camaçari, na Bahia, após a chegada da Ford, em 2000. “Houve um desenvolvimento da região metropolitana, aumento da renda e mão de obra mais qualificada”, exemplifica.
'Perdemos pessoal para a JEEP'

Proprietários de uma loja de roupas femininas em Goiana, Mércia Moura, de 57 anos, e o filho Paulo Gustavo Moura, de 36 anos, estão contentes com o aumento de 30% no movimento da loja a partir de 2012. Ressaltam, porém, que a atual crise econômica atrapalha os negócios.

A chegada da fábrica da Jeep também causou problemas à tradicional família da região, dona de duas confecções e de plantações de cana. “Estamos perdendo trabalhadores para a montadora”, diz Moura.



Ele afirma que costureiras treinadas pela própria empresa, que distribui seus produtos em seis lojas próprias em Pernambuco e três em São Paulo, estão preferindo costurar bancos na Jeep. Com cerca de 350 funcionários nas duas confecções, ele diz que, nos últimos meses, perdeu pelo menos 40 pessoas. 



No canavial, a debandada se repete e foi acentuada no período da construção da fábrica, quando muitos cortadores preferiram atuar na construção civil.



“Com a falta de mão de obra tive de recorrer mais à mecanização”, diz Moura. Em períodos de safra, ele afirma que chega a empregar entre 400 e 500 pessoas.



Impacto. Estudo da consultoria Ceplan aponta que, com a chegada da Jeep, o Produto Interno Bruto (PIB) de Pernambuco será 6,5% maior em 2020 em relação ao atual. 

Nesse período, serão gerados 47,5 mil empregos diretos e indiretos no Estado. “O impacto será lento e gradual na região e pode ajudar a reduzir marcas sociais hoje indesejáveis”, diz o economista Jorge Jatobá.
Pousada ganha mais 50 quartos

Chegada de empresas ampliam serviços em Goiana

Com a chegada à Goiana de operários para as obras da fábrica da Jeep e, agora, dos funcionários da linha de produção, a ex-agricultora Madalena Lourenço de Oliveira, de 55 anos, viu a oportunidade de ampliar sua pousada, a Diamante.

Hoje, ela dispõe de 20 modestos quartos com duas a quatro camas em cada um e seis casinhas independentes, e está com ocupação quase total. “Vamos ampliar para 70 quartos”, informa. “Não vou pegar empréstimo bancário, tudo vai ser feito com os recursos angariados dos atuais hóspedes”.

Instalada numa área afastada da região central, Madalena quer oferecer uma opção “rural” aos clientes, com comida preparada com produtos cultivados no próprio local. Para o empreendimento, ela conta com a ajuda dos cinco filhos.

Quem também aproveitou o aumento do movimento proporcionado pela chegada da Jeep e de outras empresas na cidade foi o casal Nicecleide Noêmia Araújo da Silva, de 37 anos, e José Francisco da Silva, de 46 anos. Donos de um restaurante que serve comida chinesa no centro da cidade há sete anos, o Wantai, eles abriram uma filial há quatro meses.

Eles atendem, em média, 200 pessoas por dia, mas há ocasiões em que 500 pessoas passam pelo restaurante para fazer refeições. “Com o pessoal da Jeep e das demais empresas a procura aumentou, por isso decidimos abrir uma segunda unidade”, diz Nicecleide. O próximo projeto do casal, que tem duas filhas, é uma loja de construção, informa, José Francisco.

O ramo imobiliário também teve incremento na cidade. Paulo Francisco do Nascimento, que há três anos era dono da única imobiliária de Goiana, agora tem 13 concorrentes. Sua empresa fechava em média um negócio por mês, e agora fecha entre sete e oito.

“Minha imobiliária funcionava na sala de minha casa; agora tenho escritório com sete funcionários, construí uma casa maior para morar com a família e compramos uma casa na praia”, conta Nascimento. O automóvel Gol foi trocado por um utilitário Duster e a mulher, que também é corretora, ganhou seu primeiro carro, um CrossFox.
Aos 25 anos, Juliana é chefe de 84

Engenheira química passou por treinamento na Europa

Com 80% da mão de obra contratada na região do entorno da fábrica, formada por oito municípios, a Fiat Chrysler, em parceria com escolas técnicas como o Senai, intensificou investimentos em qualificação. Uma mini linha de montagem funciona dentro da fábrica e todos os funcionários passam por extenso treinamento antes de ir para o posto oficial de trabalho.

No início do projeto, a empresa enviou mais de 200 funcionários para treinamento nas fábricas do grupo na Itália, Sérvia e Estados Unidos. Uma delas é Juliana Arruda de Miranda Coelho, de 25 anos, formada em engenharia química em 2011 e contratada para o setor de pintura, seu primeiro emprego.

Ela passou três meses na Europa. Com pouco mais de um ano de contrato, Juliana foi promovida há duas semanas a gerente de turno. Vai chefiar um grupo de 84 pessoas, entre as quais 15 engenheiros.

“É uma oportunidade enorme. Eu não conhecia nada de carros e nunca imaginei que poderíamos ter uma fábrica desse tipo aqui”, afirma Juliana, que se diz “orgulhosa de ver os companheiros nordestinos se destacando na empresa”. Moradora de Olinda, Juliana agora concilia o trabalho com os estudos para seu mestrado e já pensa no doutorado.

A planta tem apenas 60 a 70 funcionários estrangeiros fixos e um grupo de 200 pessoas de diversos países que presta serviços esporádicos.

Para toda a fábrica, a FCA escolheu um modelo de gestão em que cada grupo de seis funcionários tem um líder “com possibilidade de controle direto sobre a produção”, informa Denny Monti, responsável pela área de instalação e tecnologia. Segundo ele, isso permite um retorno mais rápido do que ocorre no processo produtivo.

Embora a festa de inauguração ocorra neste mês, em razão das agendas da presidente Dilma Rousseff e do presidente mundial da FCA, Sergio Marchionne, a fábrica já está em operação desde fevereiro.
Das obras para a indústria

Montadora contrata trabalhadores que atuaram na construção de polo automotivo

Dos 4,5 mil funcionários contratados atualmente pelo Polo Automotivo Jeep, 1,8 mil são trabalhadores da Fiat. Os demais são dos 16 fornecedores que estão instalados no mesmo terreno.

Alguns dos selecionados pela montadora são operários que trabalharam na obra que, ao todo, chegou a ter 10 mil pessoas em seu pico.

José Marcos Vicente Ferreira Junior, de 22 anos, fez parte da equipe que atuou na terraplenagem do terreno, em 2012. “Foi meu primeiro emprego com carteira fichada”, diz. Desde os 11 anos ele ajudava o pai, que era gari, fazendo bicos em padarias, mercadinhos e como frentista.

Depois da obra, tentou vários empregos, como motoboy e vendedor de uma loja de roupas, mas nenhum deu certo. “Achava que eu não tinha capacidade para trabalhar numa empresa desse porte”, conta Ferreira, que tem o segundo grau completo.

Agora, com emprego fixo na área de prensa, ele está construindo uma casa de dois cômodos para morar com a mulher em Goiana.

Após um ano desempregada, Nilma de Souza Calixto, de 35 anos, conseguiu uma vaga, há dois meses, no setor de motores. “Sou a única mulher, num grupo de 17 pessoas, que trabalha nessa área”, informa. “Meu líder fez questão de uma mulher por considerar que somos mais detalhistas”.

Nilma mora em Olinda com o marido, que é pedreiro, e dois filhos de 14 e 17 anos. “Eles voltaram a ter plano de saúde”, comemora a operária ao falar dos benefícios de estar “em uma das maiores empresas do mundo, que produz veículos de última geração”.

A Fiat Chrysler é uma das raras montadoras a contratar pessoal atualmente. Só em março o setor demitiu 1.466 trabalhadores. No ano, foram 3.650 vagas fechadas diante da queda de 16,2% na produção de veículos no primeiro trimestre ante igual período de 2014.

Além da Fiat Chrysler, devem ser inauguradas neste ano a fábrica da Honda em Itirapina (SP) e a unidade de produção da Audi em São José dos Pinhais (PR), no complexo da Volkswagen. Para 2016, estão previstas as fábricas da Mercedes-Benz em Iracemápolis (SP), da Land Rover em Itatiaia (RJ) e da JAC Motors em Camaçari (BA).

Prefeitura quer evitar favelização

Fábricas atraídas por incentivos fiscais estimulam migração de trabalhadores; faltam moradias populares e infraestrutura em algumas áreas

A chegada da Jeep movimentou a cidade de Goiana, a 60 quilômetros da capital Recife. “Há mais carros nas ruas, mais gente no comércio, nos restaurantes, nos bares e nas hospedarias”, constata Jorge Jatobá, sócio-diretor da consultoria Ceplan.

Calcula-se que a cidade tenha hoje 82 mil habitantes. Segundo a prefeitura, os dados do IBGE indicam 78 mil moradores, “mas é notória a migração nos últimos anos”.

Além da fábrica da Jeep, a maior da região, outras empresas estão chegando, atraídas por incentivos. Goiana vai abrigar um polo vidreiro, capitaneado pela Vivix, e um polo farmacoquímico, liderado pela Hemobrás. Já na vizinha Itapissuma está sendo constituído um polo cervejeiro, que nos próximos dias ganhará a unidade do grupo Petrópolis, fabricante da marca Itaipava.

Goiana e as vizinhas mais próximas, Igarassu e Itapissuma, tem 48,6% do Produto Interno Bruto (PIB) originários da indústria. Até 2011, era o segmento de açúcar e álcool que engrossava essa participação. No últimos anos, com a crise no setor sucroalcooleiro, muitas usinas fecharam e novos indicadores devem apontar presença menor desse setor na economia local.

Bairro planejado. Muitos canaviais estão desaparecendo, dando lugar a obras civis, como a fábrica da Jeep e um bairro planejado, o primeiro de Goiana, que está sendo construído numa área de 50 hectares, por muitos anos dominada pela cana.

O empreendimento, voltado à classe média, terá 22 prédios com 64 apartamentos cada, 105 lotes para casas térreas, um shopping center, um hotel e um centro empresarial.

Liderado pelo grupo pernambucano Paradigma, em parceria com as empresas AWM, CA3 e Malus, terá investimento de R$ 1 bilhão, segundo o gestor administrativo e financeiro do projeto, Heveraldo Sobral.

Em 2012, o Paradigma planejou um empreendimento apenas com lotes, sem nenhuma infraestrutura. “Com a chegada da Fiat Chrysler, o projeto foi alterado para um bairro planejado”, informa Sobral. A primeira etapa é a venda dos lotes, a R$ 116 mil cada, e 82% já foram comercializados.

A prefeitura de Goiana reconhece a falta de moradias populares, assim como de infraestrutura em várias áreas, mas diz que trabalha para evitar que se repita na cidade a favelização ocorrida em Betim (MG), após a instalação da Fiat, nos anos 70.
Unidade de Pernambuco será modelo de novos projetos

Fábrica brasileira é a primeira a ser inaugurada após união da Fiat com a Chrysler

Para construir a fábrica em Goiana, a Fiat Chrysler selecionou as 15 mil melhores práticas, processos e tecnologias adotadas por cerca de 125 fábricas do grupo nos Estados Unidos, Europa e Ásia nos últimos cinco a seis anos.

A fábrica brasileira é a primeira a ser inaugurada após a união da Fiat e da Chrysler ser consolidada, dando origem ao grupo Fiat Chrysler Automobiles (FCA). Também é a primeira unidade que produz apenas modelos Jeep fora dos EUA. A planta, contudo, poderá fabricar modelos de outras marcas do grupo futuramente.

Por ser a mais nova, é considerada a mais moderna do grupo e servirá de base para outras fábricas, uma delas em construção na China. “A fábrica de Pernambuco será mãe para projetos semelhantes ou qualquer expansão que venha a ocorrer em outras fábricas do grupo”, afirma Stefan Ketter, vice-presidente de manufatura global do grupo FCA.

Entre as novidades que ele destaca estão a estação de soldagem com 18 robôs – de um total de 570 na fábrica. Eles estão pendurados “de cabeça para baixo” no teto e conectados a outros instalados no chão que conseguem aplicar 100 pontos de solda por minuto, enquanto a média do mercado é metade disso.

Na pintura, uma de quatro etapas exigidas no processo foi eliminada, o que encurtou o tempo em 50 minutos, além de reduzir o consumo de energia. A fábrica é compacta e atualmente faz 45 veículos por hora. A capacidade total é de 250 mil veículos por ano, mas esse potencial pode chegar a 600 mil, com pequenas modificações, afirma Denny Monti, responsável pelas instalações da planta.

Flexível, pode produzir três veículos de diferentes segmentos ao mesmo tempo. Ketter acrescenta que a linha tem capacidade para fabricar modelos por até três ciclos de vida, ou seja, por 18 a 20 anos, em média, sem alterações no processo.

Na linha de montagem, uma espécie de anel gira o veículo em todas as posições para facilitar o trabalho dos operários na instalação de peças em locais de difícil acesso.

Complexo. “Esse foi o projeto mais complexo e mais bonito que eu gerenciei”, diz Ketter, de 55 anos. Ele trabalhou em diversas fábricas do grupo pelo mundo e está em Pernambuco desde julho de 2013.

“Tivemos de desenvolver a fábrica, o parque de fornecedores, a logística, atuar com pessoal que nunca trabalhou na indústria automotiva e produzir um veículo novo, tudo ao mesmo tempo”, afirma o executivo.

Os fornecedores entregam os componentes por corredores que ligam o parque à linha de montagem. Esse parque responde por 40% das peças usadas na produção. Um novo polo será erguido futuramente em uma cidade vizinha a Goiana.

Por Cleide Silva/Matéria especial do Estadão

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